quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Um relato emocionante de uma das sobreviventes da tragédia no Rio de Janeiro

Variedades
Vida real
por Luiza Pinheiro

Um relato emocionante de uma das sobreviventes da tragédia no Rio de Janeiro

Teresópolis - Equipes de resgate trabalham nas áreas atingidas pelas fortes chuvas que assolaram a região serrana do Estado

Cães e gatos já começam a comer os cadáveres, que fazer?
Este é o relato da jornalista Luiza Pinheiro, que mora em Teresópolis, uma das regiões afetadas pelas enchentes no Rio de Janeiro. É para ler, reler, guardar e, principalmente, tomar coragem para fazer algo por quem perdeu tanto...

Teresópolis - 5º dia (Dia 16 de janeiro de 2011)

São apenas 5 dias e já parece um ano ou mais.

É fácil ficar sem luz, sem telefone, já que os celulares funcionam.

Água é mais difícil porque panos de chão para limpeza não podem ser lavados com a mesma rapidez, então, os que querem doar já sabem o que incluir na lista. A Lidia Bastos lembrou de adoçantes e produtos afins porque existem muitos diabéticos e idosos com glicose alta.

A vida continua sendo possível sem geladeira, sem televisão, sem telefone, sem computador, mas nunca sem celular!!!!!

A vida nas cavernas é perfeitamente possível, gente. Me programei para acordar na primeira claridade da manhã, ou "escuridade" ainda e, ao final do dia já estou tão cansada de andar na lama que leio o jornal, à luz de uma única vela para economizar, e embalo o sono ouvindo no rádio, só nesta hora, as notícias das rádios locais, com as minhas últimas pilhas.

Mas a Dudu já veio ontem do Rio com pilhas e velas para me entregar hoje. Nossa Senhora das Velas e Nossa Senhora das Pilhas, a Dudu!

Apesar de há cinco dias eu não ter feito nenhuma refeição daquelas que se pode chamar de refeição, e não vejo ainda o dia em que isto vá acontecer. Quem quer cozinhar numa situação destas? Como nas cavernas...

Muito rápido a gente se reacostuma e, numa caverna o chão não precisaria ser limpo a cada pegada de lama.

Banho frio é a pior parte, brrrr... odeio água fria (de boca fechada, caso a água da caixa já esteja contaminada) e o sabão não sai do corpo facilmente.

A vinda para cá é totalmente segura, quem sobe a serra relata que não dá para acreditar que aconteceu qualquer coisinha. Foi afetada apenas uma faixa da cidade, que se estende até a área rural e na direção dos outros municípios.

Garanto a vocês que a vinda é segura.

Quem quiser doar material o endereço é Rua Caramuru, 200, no bairro do Meudon.

E a cidade está fortemente policiada, CORE, BOPE, Polícia Especial, Civil, Militar, Rambo, Homem-Aranha, Schwarzenegger, X-Men, todos por aqui. Também tem alguns vampiros crepusculares saqueando as residências, mas meus fiéis cães ficam tomando conta da casa enquanto escrevo para vocês. São de confiança e nunca é preciso duvidar deles!

Hoje estão subindo, a pedido da minha amiga Vivian Rocha Maia, um grupo de cães farejadores para ajudar nos resgates dos soterrados. Daqui a alguns dias eu escrevo tudo o que sei sobre estes resgates, aprendido com minha querida amiga Bia Hermanny, lá no Texas, cujo golden retriever foi treinado para isso no Texas.

Mas as coisas estão melhorando perto de mim, agora já ando com lama apenas nos tornozelos, e não nos joelhos. Vou ao supermercado e à lan house a pé ou, quase sempre, de carona de pessoas que passam os dias para lá, levando os que estão caminhando e para cá trazendo os que caminham em sentido contrário. Todos já devem estar cheios de ouvir os agradecimentos, de tanto que é emocionante a ajuda de todos os lados, inclusive a de vocês, que doam, telefonam, escrevem, se oferecem para subir a serra para colocar a mão na massa, na lama. Vocês são o máximo. Tenham a certeza.

Quem resgata pessoas nos morros se enterra até a cintura (e cada passo é um esforço sobre-humano para puxar a perna que a lama insiste em chupar - nunca se imaginou que caminhar pudesse ser tão cansativo) e improvisa caminhos por cima da lama com galhos, gravetos e folhas para não afundar e retirar os doentes, às vezes obesos, em macas mais improvisadas ainda.

Alguém cedeu um galão na cidade onde já estavam, até ontem, 68 cães resgatados, muitos por voluntários do Rio, que vieram ajudar em resgates impossíveis para nós protetoras, como cães de guarda treinados que, mais do que nunca, defendem os territórios que sobraram de seus terrenos levados pelas águas. Ou pitbulls, em muitos casos, desesperados como gatinhos dóceis, de tanto pavor e fome, presos em correntes ainda.

Cães e gatos já começam a comer os cadáveres, que fazer? Quando são resgatados vomitam nos carros odores inimagináveis de carne em putrefação.

Meu pedido de hoje?

Que se lembrem que estamos nos nossos “15 minutos de lama”, mas que isto vai passar e, como em todas as outras tragédias, a memória vai se desvanecer e o coração se acostumar a estas emoções. Mas que nos abrigos os cães continuarão a ter que ser alimentados por meses a fio, e talvez para sempre. Alguns são idosos, outros paralíticos e muitos deles não encontrarão novos donos. Alguns, se vê claramente, tinham bons donos, estão até beeeem gordinhos, mas muito provavelmente estes donos morreram. Muitos deles tentando salvar seus animais. Muitos animais morreram não querendo sair de perto de seus donos em desespero.

Nossa amiga e protetora Adriana Figueira e sua amiga Graça foram levadas com sua cadela, a Marrom, que esteve em minha casa e que era uma linda e muito divertida “doidona do bem”, pela força das águas.

Adriana e Graça afundaram e emergiram inúmeras vezes tentando se agarrar a qualquer coisa que as mãos tocassem, saíram das águas muito, muito machucadas e com as roupas arrancadas pela força da água, inteiramente nuas. A Marrom? *Ai...*, querida Marrom, querida Marrom, é difícil acreditar que possa ter se salvado. Eles não têm com o que se agarrar. Raras são as pessoas que tentam salvá-los quando existem tantos humanos para serem salvos ainda.

Os bancos não abrem, o comércio abre apenas uma porta, mas os jornais chegaram desde ontem. Correio ainda não, lixo idem. Estas equipes devem estar todas mobilizadas em mutirões de ajuda às localidades caóticas. Mas quem reclama? Estão certos. Alguém sabe de alguma palavra que venha depois de caótica para definir a situação? É que parece que caótico já perdeu a definição por aqui...

E eu tenho o firme propósito de nunca mais reclamar da Ampla! Na nossa estrada os postes estavam abaixo, seu concreto esmigalhado pelos troncos de árvores muito maiores do que eles. Os fios de alta tensão todos partidos, ou tracionando todos os outros postes em cadeia, inclinados perigosamente em direção ao asfalto.


Andar pela cidade tornou-se um exercício físico tremendo, significando lama até a cintura


É por esta estrada que caminhamos todos os dias e que supomos que iria levar meeeeeses para que o serviço fosse restaurado. Mas o DNIT limpou a estrada trabalhando como loja de conveniência, 24 horas em funcionamento. A Ampla, que recebeu apoio da Light, na sexta-feira à tardinha já tinha colocado novos postes, refeito as ligações e restabelecido nossa luz. Agora a luz vem e volta, mas isto é o de menos, o tempo anda instável e a gente compreende todas as dificuldades deles também. Estes trabalhadores deixaram suas famílias e deixaram de reconstruir suas casas para nos ajudar a reconstruir nossas vidas. Vieram de Petrópolis, do Rio, de todo lado. Estes trabalhadores nos relatavam estar 72 horas sem dormir, sem notícias das famílias, esgotados. Mas nunca diziam estamos parando. Alguém sabe uma definição acima de altruísmo, abnegação, generosidade, dedicação?

Amanhã vou me colocar nas filas, tentar ir ao banco, tomar minha vacina contra hepatite, contratar gente para refazer as cercas. Vou ouvir muitas histórias que não desejaria ouvir, mas as pessoas precisam falar. Assim como eu estou fazendo com vocês nestes momentos.

Organizando os pedidos :
Doem. Qualquer coisa. O que sentirem mais afinidade para ajudar.
Adotem animais, ou os saudáveis que já haviam sido resgatados, ou os que acabam de chegar.
Programem-se para continuar alimentando os cães depois que a nossa fama der lugar a outros assuntos. As pessoas terão verbas do governo, mesmo que precárias e desorganizadas.

Um beijo de domingo,

Luiza

Nota da redação: Até a manhã desta quarta-feira (dia 19), de acordo com informações da Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil, prefeituras e Polícia Civil, chegou a 725 o número de mortos por causa das enchentes que devastaram a região serrana do Estado do Rio de Janeiro.

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