terça-feira, 13 de março de 2012

RI ATÉ VIRAR DO AVESSO ..POR ISSO TENHO QUE COMPARTILHAR ...

A sobrevivente do DIU

Publicado em 27/01/2009 pelo(a) Wiki Repórter Red, São Paulo - SP
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Saía eu ontem do trabalho e rumava para meu lar, de forma a colocar os pés pra cima e entregar-me ao merecido ócio, quando chega até mim uma mensagem no celular. Era de uma amiga.

- EU VOU MORRER!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Liguei para a mocinha, pensando que ela poderia ter sido avisada pelo médico que só tinha mais seis meses de vida. Sei lá. Era muito cedo para que alguém relativamente normal estivesse totalmente bêbado a ponto de precisar de uma ambulância.
Do outro lado, ouvi, ao invés de um "alô", algo parecido com um guincho.

- Queísso, minha filha? EU NUNCA MAIS VOU TER AQUELAS IDÉIAS ESTÚPIDAS A RESPEITO DE TER FILHOS! AGORA ENTREI PARA A SUA SEITA! AAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
Ela começou uma narrativa que durou, sem brincadeira, mais ou menos 1h20 de conversa telefônica. Achei tão parecida com as coisas que eu vivencio que resolvi repassar aqui. Mas é claro que eu vou produzir a narrativa com as minhas influências literárias.
Eu já havia conversado com duas amigas minhas sobre o DIU. Elas usavam, dizia que era ótimo e que era super fácil de aplicar. E eu, que queria abrir mão dos hormônios do anticoncepcional, decidi que ia fazer o mesmo. Fui ao meu gineco, o dr. Xereca, e fiz todos os exames. Ele me disse que eu poderia voltar lá para colocar o DIU. Mas tinha que ser no segundo dia da menstruação. Achei estranho. Como assim ele vai colocar um negócio lá dentro se tem uma enchente no caminho?

Ele me explicou tudinho: o segundo dia da menstruação era o ideal para se colocar DIU porque é o momento em que a abertura do útero está mais dilatada e, dessa forma, é mais fácil fazer o negocinho – que parece um pequeno grampo – passar lá pra dentro. Se fosse fora do segundo dia, ele não recomendaria tal iniciativa porque a dor seria algo digno de processo criminal por tentativa de homicídio.

Lá fui eu na data certinha. Deitei na mesa do doutor, naquela posição de frango assado. E ele começou a explicar TODOS os detalhes do procedimento, para que eu não fosse pega de surpresa. Comecei a desconfiar. Pensei na hora: "Essa coisa vai doer!".

Primeiro, é claro, ele introduziu o arrombador. Aquele maldito instrumento que eles usam para fazer papanicolau e que te dá a impressão de que você está sendo currada por uma turbina da usina de Itaipu. Isto feito, ele disse: "Agora sim, daqui eu posso ver a entrada do seu útero. Agora eu vou passar umas gases para tirar o excesso de sangue e depois um sabonete para..."

Deus, o Galvão Bueno da ginecologia! E eu lá queria narrativa daquela coisa toda? Olhei pro teto e engoli uma resposta que veio parar na ponta da minha língua e obriguei a voltar para a garganta: "Enfia esse negócio logo, que eu quero ir pra casa!".
"Agora tem a parte mais importante", disse o doutor. "Vou fazer um teste para ver a abertura que vamos fazer no seu útero é suficiente para o DIU passar. Fique quietinha!"

Quietinha é comigo mesma. Olhei pro teto e comecei a pensar em coisas agradáveis. Isso mais ou menos por uns 3 ou 4 segundos. Porque em seguida eu senti uma dor no ventre que me obrigou a emitir um urro que eu jamais imaginaria que seria capaz. Quando dei por mim, estava com a musculatura tão retesada que parecia um tatu bola.

"Calma, calma! Paramos! Eu espero você respirar um pouco!", disse o médico, cuja calma na voz tornava as coisas ainda piores.
A dor foi uma das coisas mais enlouquecedoras que eu já senti na vida. Senti meu rosto ficar vermelho. Meu estômago se virou e eu achei que ia vomitar ali mesmo, na mesa. As lágrimas começaram a descer.
"Relaxa sua pélvis e escorrega mais aqui pra baixo", pediu o doctor.

"Eu... não... consigo..."
De fato, a dor era tamanha que meus músculos não descontraíam mais. Mal e porcamente eu conseguia respirar. Fui ficando tonta. Eu não tinha forças nem pra sair correndo. Aliás, como eu ia sair correndo com um negócio enfiado no meio das pernas? Cheguei a considerar a possibilidade de mandá-lo arrancar aquilo, desistir de tudo e nunca mais aparecer naquele lugar. Mas aí é a tal história: depois de aguentar essa coisa tão absurda, que estava realmente me fazendo passar mal, tem que ser por uma causa válida, não?
Eu gritava e chorava. E a dor não diminuía em nada.

"Não tenha pressa. Eu espero."
Esperar? ESPERAR? O suor escorrendo pela minha testa, o sofrimento estampado na minha face, aquela dor alucinante me fazendo pagar todos os pecados da Humanidade... esperar o quê, meu filho? Eu não conseguia articular uma frase inteira para responder, tamanha a dor. Só fazia careta e tentava soltar os músculos, que não obedeciam. Que dor, meu Jesus! Quando eu consegui puxar ar para dentro do pulmão em quantidade suficiente para conseguir falar algo, o que saiu foi um grito que pôde ser ouvido em um raio de oito quarteirões:
- PELO AMOR DE DEUS, ENFIA ISSO LOGO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Em seguida, desabei na mesa gemendo, pensando em como devem ter reagido as pessoas que estavam na sala de espera, do lado de fora do consultório. A recepcionista deve ter corrido para a porta para conter a multidão de mulheres que tentaram fugir naquele exato momento, com medo do que aquele médico poderia estar fazendo com sua paciente. "Calma, senhoras, é apenas um DIU! Por favor, sem pânico!"
Pior foi o doutor, que sequer estranhou o berro. O que me levou a pensar que outras pessoas tevem ter armado barracos piores e ele já estava mais do que acostumado com escândalos.
"Tá bom. Calma. Vou abrir a embalagem!"

ABRIR A EMBALAGEM? E enquanto isso, eu faço o que???? Desmaio? Eu não conseguia nem levar as mãos aos olhos para limpar as lágrimas...

Sabe homem quando leva duas horas para abrir embalagem de camisinha? Foi essa a sensação que eu tive naquela hora. Só escutava o barulhinho do plástico sendo rasgado, e só pensava que eu não iria sobreviver àquilo. Era dor demais, estava acima da minha capacidade.

"Agora. Um... dois..."

ZUP!
O que já estava doendo, piorou. Senti outra onda de dor invadindo a região do ventre e emiti outro urro desesperado. Naquela hora, a vizinhança deve ter chamado a polícia ou algo parecido. Eu me agarrava à mesa e grunhia, enquanto o doutor retirava todas as trolhas de dentro de minha pobre e sofrida pessoa.

"Pronto... pronto... agora você pode ficar aí deitadinha quanto tempo você quiser, até se recuperar!"
Não consegui ficar deitada. A dor era tamanha que eu precisava vomitar. Fui ao banheiro dando passinhos. Sentei no vaso, encostei a cabeça na parede e fiquei lá, de olhos fechados, uns 20 minutos, pedindo a Deus para levar aquela sensação horrível embora. Estava suada e ofegante. Só depois desse enorme intervalo a ânsia de vômito passou. Tirei o aventalzinho e vesti minha roupa. Saí do recinto e sentei na frente da mesa do médico com cara de soldado que perdeu as vísceras na guerra.

"Você foi ótima. Muito bem. Resistiu bravamente."

Hein?
"Você tem alguma dúvida, minha querida?"
"Sim, doutor Xereca."

"Pode perguntar o que quiser."
"Isso que eu senti hoje é parecido com dor do parto?"

"Huuuummmm... eu diria que lembra!"

"O senhor sabe que, depois dessa, eu não terei filhos nunca, não é, doutor Xereca?"
"Minha querida, as mulheres aguentam essa dor com um sorriso no rosto... é tão lindo!"
Sorriso no rosto... sorriso no rosto... só se pusessem aquele arame na minha boca para o meu rosto parecer sorridente no caixão. E na minha lápide estaria escrito: "Teve um filho. Morreu de dor. Descanse em paz."
Saí do consultório naqueles passinhos. Ao entrar na recepção, um casal com um recém nascido. E, é claro, um zilhão de mulheres em volta fazendo "ooooooh", "uuuuuuuh", "cuuuti" etc. E eu olhei para a cabecinha do bebê e pensei: "Se aquele pequeno grampo me fez isso, imagine passar essa cabeça inteira... meu Deus... não é possível que a mãe natureza seja tão malvada."
O doutor Xereca está avisado: daqui a cinco anos, quando eu trocar o DIU, ele vai ser bonzinho e me aplicar uma peridural antes.

Liguei hoje para minha querida amiga para perguntar se ela havia sobrevivido. Ela estava de cama. Choramingou de dor até altas horas da madrugada. De manhã, ligou para o trabalho e avisou que nem o desabamento do prédio a faria mover-se. Embora a dor tivesse amenizado em relação ao dia anterior, ela resolveu que estava em algum lugar no estatuto do trabalhador que ela tinha direito de enforcar a sexta-feira e pronto.

Há pouco liguei de novo e ela já estava enchendo a cara. Em casa, de pijama e pantufas.
Todo sofrimento deve ter sua compensação

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